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Pesquisa

Medicina do Trabalho

Trabalho: Crónica de uma Morte Anunciada

2010-01-25 21:43

A qualidade de produção deixou de ser o lema das chefias e a quantidade passou a ser a nova máxima que todos são obrigados a aceitar para se manterem no mercado de trabalho. A equipa de trabalho deixou de ser uma segunda família, para passar a ser meramente um exército de formigas operárias, indiferenciadas e anónimas, que devem produzir o máximo possível, a baixo custo e sob quaisquer condições.

Actualmente, escudando-se nas alterações provocadas pela globalização e pela crise económico-financeira generalizada, a gestão das empresas passou a assentar, essencialmente, no aumento do lucro através da imposição do aumento da produtividade dos seus trabalhadores, a baixa de salários e a quebra de direitos e garantias, assim como, a redução de custos nas mais diversas áreas, mesmo que essas reduções impliquem a diminuição das condições laborais.

A onda de suicídios na France Telecom - 25 consumados e 14 tentativas desde Fevereiro do ano passado - é o corolário mais dramático desta pandemia global. E veio trazer a lume o debate sobre a situação trágica em que muitos trabalhadores vivem.

Em Portugal, como seria de esperar, não há estatísticas ou estudos credíveis sobre a matéria. Há dados avulso que nos vão alertando para a situações, como o facto de as baixas médicas, em Setembro de 2009, ter aumentado 60% (por referência a Setembro-2008), o facto do número de baixas psiquiátricas ter aumentado, de as queixas relacionadas com stress laboral serem cada vez mais comuns, e de as doenças cardiovasculares, como o Enfarte do Miocárdio e os AVCs (que representam a principal causa de morte no nosso país e são uma importante causa de incapacidade), se registarem em pacientes cada vez mais novos. Os sinais são vários e já se vêm evidenciando há algum tempo.

Os especialistas alertam para o impacto do burnout (uma condição de exaustão emocional e esgotamento físico resultante do acumular da tensão devido a factores de stress laboral), não só na saúde e na qualidade de vida dos trabalhadores, mas, também, na produtividade das empresas. Ou seja, as políticas empresariais que visam apenas o lucro estão, paradoxalmente, a gerar factores que diminuem a produtividade.

A questão que devemos colocar é: o que aconteceu realmente para que, nos últimos anos, a doença, o sofrimento e as mortes associadas ao stress laboral tenham atingido níveis tão preocupantes? Culpar a crise económica parece uma resposta demasiado simplista. Na opinião dos especialistas o que existe é uma multi-causalidade que emerge das profundas e rápidas mudanças sociais.

A nova realidade é: “Produzo, logo existo”. Num mundo cada vez mais competitivo, o valor do indivíduo passou a estar directamente indexado ao volume de trabalho que produz. O objectivo é só um: o aumento da rentabilidade, pela via da redução de custos (trabalhadores e salários) e a imposição de objectivos crescentemente exigentes.

Sobre este tema, Rui Mota Cardoso, psiquiatra e professor da Faculdade de Medicina da Universidade do Porto, afirma "o homem transformou-se numa máquina produtiva, sem capacidade de controlar nada - só serve para cumprir ordens - sujeito a pressões insuportáveis e a ameaças constantes". A triste ironia é que esta filosofia do lucro rápido está a demonstrar resultados paradoxais. Trabalhadores exaustos física e mentalmente, desmotivados, que sentem ser uma peça insignificante numa poderosa e voraz engrenagem, produzem menos e com níveis inferiores de qualidade e faltam mais ao trabalho. Mota Cardoso frisa ainda que a pressão para maximizar a produção conduz, em última instância, a perdas de rentabilidade.

No mesmo sentido, Manuel Carvalho da Silva, coordenador da Confederação Geral de Trabalhadores Portugueses, esclarece que "a subversão das políticas empresariais" levou a que "a acumulação rápida de capital se tenha tornado o principal objectivo, e não a criação de bens e serviços". As jornadas de trabalho tornaram-se mais longas e penosas dando origem a mais doenças e acidentes profissionais, o que penaliza, além do trabalhador, a empresa e a própria sociedade.

O coordenador da Confederação Geral de Trabalhadores Portugueses alerta: "Portugal é um dos países da Europa onde o agravamento dos factores de precariedade está a ser mais acelerado". O crescente descontrolo dos horários de trabalho, que inviabilizam a conciliação entre as esferas profissional e pessoal/familiar, a mobilidade geográfica forçada, os ritmos violentos de laboração e a precariedade generalizada (não só dos contratados como também dos que têm vínculo), são as principais causas do aumento do stress laboral.

Cada vez mais a população activa deixa de considerar o seu trabalho como uma fonte de prazer, como algo desafiante e gerador de realização pessoal, para o considerar como um sacrifício diário, algo que se tem de fazer para se sobreviver.

O burnout é a última fase do stress laboral. De acordo com Rui Mota Cardoso, o stress constante diminui as resistências do indivíduo, tornando-o mais vulnerável a uma variedade de sintomas físicos, psicológicos, familiares e sociais. Surgem as insónias, as dores de cabeça, as perturbações digestivas, a tristeza, o desinteresse, a irritabilidade, a perda da capacidade de concentração, o isolamento social, problemas relacionais, entre muitos outros sinais de alarme.

E este é um alarme ao qual necessitamos estar atentos, é um problema social, que exige respostas urgentes e conscientes para uma realidade dura e muito próxima de cada um de nós.

A aposta no capital humano, o princípio da cooperação entre funcionários e entidades patronais, a manutenção de um bom ambiente de trabalho, é o melhor segredo para o sucesso. Existem empresas que se preocupam em agir desta forma e os bons resultados estão claramente à vista.

Não podemos continuar a caminhar neste caos social causado por um capitalismo selvagem sem nada fazer. É urgente sair do formigueiro e respirar, porque quando o trabalho não significa prazer, mas apenas dever, a vida é uma escravidão!
Fonte: Jornal de Notícias