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Pesquisa

Medicina do Trabalho

Alterações no Organismo Humano Decorrentes das Condições de Ambiente Térmico

2014-04-07 18:31

De acordo com a American Society of Heating Refrigeration and Air Conditions (ASHRAE), conforto térmico pode ser definido como "o estado de espirito em que o indivíduo expressa satisfação em relação ao ambiente térmico". Este, por sua vez, pode ser definido como o conjunto das variáveis térmicas do posto de trabalho que influenciam o organismo do trabalhador, sendo assim um fator importante que intervém, de forma direta ou indireta na saúde e bem-estar do mesmo, e na realização das tarefas que lhe estão atribuídas.

O estado de conforto térmico é obtido quando um indivíduo está numa condição de equilíbrio com o ambiente que o rodeia, o que significa que é possível a manutenção da temperatura corporal sem que haja um esforço sensível. Esta é a situação ideal, que corresponde a um ambiente neutro ou confortável. Fora deste ambiente podem existir alterações fisiológicas no ser humano.

Em condições normais de saúde e conforto, a temperatura do corpo humano mantém-se aproximadamente constante, entre, aproximadamente, os 36ºC e os 37,4ºC, graças a um equilíbrio entre a produção interna de calor devida ao metabolismo e à perda de calor para o meio ambiente.

Esta perda de calor efetua-se segundo as leis da física de troca de calor (por condução, por convecção, por radiação), e fisiologicamente pela evaporação/condensação e pela respiração.

A temperatura do ambiente é importante porque determina a velocidade com que o calor do corpo pode ser transferido para o ambiente e, assim, a facilidade com que o corpo pode regular e manter uma temperatura adequada.

O corpo humano dispõe de um sistema termorregulador bastante eficiente, que compreende três mecanismos:

  • Os vasos sanguíneos (em particular os capilares) que desempenham o papel de “serpentinas” de arrefecimento ou de aquecimento do sangue. Por exemplo, o corpo reage aos efeitos da alta temperatura aumentando o ritmo cardíaco e dilatando os capilares.
  • Segregação de suor (a evaporação do suor produz um arrefecimento).
  • Termogénese, que se desencadeia aquando do arrefecimento do corpo e consiste numa intensificação das reações nos músculos e outros órgãos.


ALGUNS EFEITOS DAS TEMPERATURAS EXTREMAS SOBRE O ORGANISMO

A subida ou descida da temperatura ambiente para fora da zona de conforto coloca em marcha diversos mecanismos corporais destinados a manter constante a temperatura corporal, aumentando ou reduzindo as trocas de calor com o exterior.

TEMPERATURAS ALTAS:

  • Vasodilatação sanguínea (aumento do calibre dos vasos sanguíneos) para aumento das trocas de calor.
  • Ativação (abertura) das glândulas sudoríparas: aumento das trocas de calor por sudação.
  • Aumento da circulação sanguínea periférica (pode chegar a 2,6 l/min/m2).
  • Troca eletrolítica pelo "suor" (a perda de sais minerais pode chegar a 15 g/ litro).

 

A subida de temperatura acima da zona de conforto começa a provocar transtornos que se podem dividir em três classes:

  • Psicológica - incómodo, mal-estar; etc.
  • Psicofisiológica - aumento da sobrecarga do coração e aparelho circulatório.
  • Patológica - agravamento de doenças.

 

Se os níveis de calor ambiental forem muito elevados, os transtornos serão mais graves, podendo surgir, entre outros:

  • Transtornos psiconeuróticos - fadiga térmica.
  • Transtornos sistemáticos - esgotamento por calor; deficiência circulatória; desidratação; dessalinização; anidrose (perda da faculdade de suar); golpe de calor.
  • Transtornos na pele - erupção (milaria rubra); queimaduras solares (devido às radiações ultravioletas).


TEMPERATURAS BAIXAS:

  • Vasoconstrição sanguínea (diminuição do calibre dos vasos sanguíneos) para redução da cedência de calor ao exterior.
  • Desativação (fecho) das glândulas sudoríparas.
  • Diminuição da circulação sanguínea periférica.
  • Tremores (contrações involuntárias dos músculos esqueléticos para gerar calor).
  • Autofagia dos lípidos armazenados, ou seja, transformação química de gorduras em glícidos (açúcares) de metabolização direta.

 

A descida de temperatura abaixo da zona de conforto causa transtornos que se podem traduzir em:

  • Mal-estar geral.
  • Diminuição da destreza manual.
  • Redução da sensibilidade táctil.

 

Uma grande descida dos níveis de calor ambiental poderá causar:

  • Anquilosamento (rigidez) das articulações.
  • Comportamento extravagante (hipotermia do sangue que rega o cérebro).
  • Congelação dos membros, sendo as extremidades as mais afetadas.
  • Frieiras (lesões causadas pela exposição da pele a frio intenso).
  • Eritrocianose (afeção vascular predominantemente funcional causada por exposição direta a temperaturas muito baixas, mas que não chegam a ser congelantes).
  • Pé das trincheiras (o pé torna-se pálido, húmido e frio, e a circulação diminui. Se não for tratado, pode produzir-se uma infeção).
  • Enregelamento (temperaturas inferiores a -20ºC).
  • Quando a temperatura interior é inferior a 28º C ocorre a morte por falha cardíaca.

 

Em Portugal, devido às condições climatéricas existentes, o problema de trabalhos em ambientes exteriores a temperaturas muito baixas é de pequena relevância.


CONTROLO DO AMBIENTE TÉRMICO

Um ambiente térmico saudável é o resultado do controlo simultâneo da temperatura, humidade e renovação do ar nos postos de trabalho. A temperatura e a renovação do ar são fatores relacionados entre si, dado que um influencia o outro por meio da ventilação.

Com a finalidade de se obterem condições ótimas de trabalho, devem ser tomados em consideração os seguintes pontos:

  • A regulação da temperatura e a renovação do ar devem ser feitas em função dos trabalhos executados e mantidos dentro de limites convenientes para evitar prejuízos à saúde dos trabalhadores.
  • O caudal médio de ar fresco e puro deve ser de, pelo menos, 30m3 por hora e por trabalhador. Poderá ser aumentado até 50m3 sempre que as condições ambientais o exijam, por exemplo, em locais onde se efetuem trabalhos de soldadura.
  • A temperatura e a humidade dos locais de trabalho devem ser adequadas ao organismo humano, levados em conta os métodos de trabalho e os condicionalismos físicos impostos aos trabalhadores.
  • É recomendável que a temperatura dos locais de trabalho oscile entre 18ºC e 22ºC, salvo em determinadas condições climatéricas, em que poderá atingir os 25ºC.
  • A humidade da atmosfera de trabalho deverá oscilar entre 50% e 70%.

 

Quando, por diversos condicionalismos, não for possível ou conveniente modificar as condições de temperatura e humidade, deverão ser adotadas medidas tendentes a proteger os trabalhadores contra temperaturas e humidades prejudiciais, através de medidas técnicas localizadas ou meios de proteção individual ou, ainda, pela redução da duração dos períodos de trabalho no local. Não devem ser adaptados sistemas de aquecimento que possam prejudicar a qualidade do ar ambiente.

Nos locais de trabalho onde a temperatura é elevada, devem ser colocadas barreiras, fixas ou amovíveis, de preferência à prova de fogo, para proteger os trabalhadores contra radiações intensas de calor. Devem ainda ser fornecidos equipamentos de proteção individual, tais como luvas, aventais, fatos, etc. e deverá ser previsto o fornecimento de bebidas para evitar a desidratação.

Pelo contrário, em locais de trabalho de baixa temperatura, deve ser fornecido aos trabalhadores vestuário de proteção adequado e bebidas quentes.

Nas indústrias em que os trabalhadores estejam expostos a temperaturas extremamente altas ou baixas, devem existir câmaras de transição para que se possam arrefecer ou aquecer gradualmente até à temperatura ambiente.

As tubagens de vapor e água quente ou qualquer outra fonte de calor devem ser isoladas, de forma a evitar radiações térmicas sobre os trabalhadores, ou perda de energia por parte destes.

Os radiadores e tubagens de aquecimento central devem ser instalados de modo que os trabalhadores não sejam incomodados pela irradiação de calor ou circulação de ar quente. Deverá assegurar-se a proteção contra queimaduras ocasionadas por radiadores.

Em relação à qualidade do ar devem existir na empresa sistemas de aspiração de fumos e/ou poeiras, sistemas de aspiração sobre os locais de utilização de produtos nocivos e deverá existir sempre uma renovação regular de ar das instalações. As correntes de ar devem ser sempre evitadas pelo que, na implementação dos postos de trabalho, deverá ter-se sempre em consideração esse facto.

A manutenção dos equipamentos de aquecimento e/ou refrigeração deverá ser programada e efetuada em prazos que permitam um eficiente funcionamento dos mesmos.


AVALIAÇÃO DO AMBIENTE TÉRMICO

No estudo do ambiente térmico há a considerar duas situações:

  • A sobrecarga térmica ou "stress" térmico que relaciona a exposição do corpo humano a ambientes de temperaturas extremas;
  • O conforto térmico que, não envolvendo temperaturas extremas, relaciona a temperatura, humidade e velocidade do ar existentes nos locais que, no seu conjunto, podem provocar desconforto.

 

Qualquer uma destas situações pode ser medida com base em técnicas especiais calculando-se índices que informam da qualidade ambiental do local de trabalho.

• O indicador para avaliar a sobrecarga térmica é o índice WBGT1 - Norma ISO 7243 - 1989.

• O conforto térmico é medido através dos índices PMV2 e PPD3 - Norma ISO 7730 - 1994.

• Qualquer um destes índices é calculado com base em medições de temperatura, humidade relativa, velocidade do ar, calor radiante e em dados sobre o vestuário dos trabalhadores presentes no local e na sua atividade.

Para estas medições são utilizados os seguintes aparelhos:

  • Temperatura: termómetro registador.
  • Humidade relativa: higrómetro de bolbo seco e húmido, psicrómetro ou termohidrógrafo.
  • Velocidade do ar: anemómetro.
  • Calor radiante: termómetro de globo negro

 

Os cálculos, que envolvem alguma complexidade, deverão ser efetuados por um Técnico Superior de Segurança no Trabalho.


Daniel Ferreira (TSST)